O Problemas das Respostas Prontas

(Esse texto diz respeito apenas a pessoas trans e suas comunidades, pessoas cis não estão convidadas a lê-lo)

O que é cis? O que é trans? O que é gênero? O que é sexo?

Em minha experiência essas perguntas sempre recebem respostas prontas, fixas. Mas não existem respostas prontas para nenhuma dessas perguntas.

Metaestruturas guiam a visão de todo mundo. Isso é especialmente visível em pessoas com background acadêmico, mas isso ocorre com todo mundo. As respostas de pessoas da teoria queer vão ser diferentes das respostas de pessoas marxistas que serão diferentes das respostas de uma pessoa que nunca nem teve contato profundo com disciplinas das humanas.

Mas uma coisa é comum em todas essas respostas: tem o status de verdade absoluta. Seja para justificar a transfobia, seja para cravar um nicho pseudo-revolucionário que se pretende capaz de responder tudo. E o diálogo fica sufocado.

Obviamente que não me interessam concepções transfóbicas sobre essas coisas. Mas dentro das comunidades transfeministas, o diálogo é travado. A concepção teórica se divide em pequenas facções que entendem as coisas cada qual do seu jeito e a defendem como verdade absoluta.

Precisamos de menos verdades absolutas. Precisamos de menos respostas prontas. Precisamos de mais humildade e mais “eu vejo dessa forma pois vejo as seguintes vantagens nesse entendimento”.

Sinto ser sábio que meçamos nossas teorias e definições pela sua utilidade política tanto quanto as medimos por outros critérios.

É uma proposição ingênua, certamente vinda de uma pessoa cujo contato com a academia foi efêmero, que repete sensos-comuns de qualquer aula primeira de epistemologia. Mas ainda assim é o que eu proponho.

Desejo ver um transfeminismo que esteja mais nas ruas do que nos livros. E na rua pouco me interessa definir o que é gênero, o que é ser trans, o que é ser cis. Pois o gênero se faz presente, a transfobia é óbvia, os privilégios são visíveis. O resto, é detalhe.

É uma proposição hipócrita, vinda de uma pessoa que se limita a teoria. Mas ainda assim é o que eu proponho.

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Narrativas

Uma narração não é um recontar de fatos objetivos. Não é uma câmera de vigilância pronta a registrar o mundo da sua perspectiva fixa e apessoal. Narrações são tentativas de se montar quebra-cabeças e partem do pior lugar possível: de dentro do próprio quebra-cabeça.

“Nasci com alma feminina”, explica a mulher trans para o cisuniverso. “Tenho uma morfotopologia neural feminina”, justifica-se outra. “Sou mulher pois não me encaixo em estereótipos de gênero”, outrinda diz.

Todos ao pé de Rashōmon. Uma estrutura que agora já é clichê e todos podem entender dentro da ficção mas que raramente se aplica à sua própria vida. Rashōmon não é uma história de mentiras egoístas tanto quanto é uma história de verdades individuais. De narrativas.

Narrativas são mapas astrais, búzios, bíblias, arquétipos jungianos, são tipos Myers-Briggs de personalidade. São a visão na qual tentamos nos reconhecer, são o modelo que guia nossas decisões e nossa visão de nós mesmos.

É impossível se conhecer sem linguagem. E a linguagem nos traz moldes prontos, estruturas ideológicas de fácil acesso. Não existe diferença entre em um jocoso “sabe como são escorpianas, né?” e “nasci com uma essência feminina”. Ambos existem num estado de superimposição verdade-mentira. São as mentiras necessárias quando não existe verdade.

Todas as narrativas de transgeneridade são válidas pois todas as narrativas de humanidade são válidas. Teorias de gênero e de personalidade são apenas o substituir de mentiras simples para mentiras complexas. Mentiras que fazem sentido (todas fazem), internamente coerentes (espera-se), que explicam mais do que apenas uma pessoa. Mas ainda assim, mentiras. Masturbações acadêmicas teóricas e retóricas buscando supra-mentiras que expliquem todas as pequenas mentiras.

Urgi que pessoas trans destruíssemos nossas narrativas. Pois o cisuniverso é nosso Rashōmon. O cisuniverso é nossa linguagem. Gênero é a mentira que pessoas cis criaram. É a mentira da qual é impossível escapar. Gênero não existe. Gênero é um sistema de dominação e controle. Gênero é uma performance. Gênero é gostar de azul ou de rosa. Gênero é ter uma genital ou outra. E essas supraestruturas narrativas são todas mentiras. Escolher uma como verdade é desafiar quem a escolheu como mentira.

Escolher uma mentira sobre outras é dizer que nasceu com alma feminina e ouvir que almas não existem. A alma feminina nunca existiu. A alma feminina é a mentira-tomada-por-verdade que permite a sobrevivência, que permite aquietar a dúvida, que permite explicar para o cisuniverso que nós somos gente, que somos válidas, que existimos.

Todas as narrativas trans são válidas pois não existem narrativas trans. Nossas narrativas não são nossas. São sobrevivência. São formas de explicar a nós mesmas e ao cismundo que ainda somos gente. Narrativas trans são, por definição, narrativas cis.

E essa é a minha mentira, minha teoria de gênero masturbatória e inútil: não existe verdade.

Por uma Resistência Radical Contra a Supremacia Cis

Supremacia cis é toda vez que nos perguntam sobre nossas genitais;
É toda vez que nos dizem como nos vestir;
É toda vez que nos dizem como nos comportar;
É toda vez que dizem “homens, mulheres e travestis”;
É toda vez que nos perguntam sobre nossa vida pré-transição;
É toda vez que dividimos nossa vida em narrativas higienizadas baseadas na ideia da “transição”;
É toda vez que escondemos nossas dúvidas;
É toda vez que nossas dúvidas, comportamentos, vestimentas e reações estão sob escrutínio muito mais intenso que o de qualquer pessoa cis estaria;
É toda vez que nos olham feio na rua;
É toda vez que riem de nós;
É toda vez que falam nossos nomes civis em voz alta;
É toda vez que somos piadas;
É toda vez que nos assassinam.

Não vamos deixar mais que a supremacia cis dite quem somos. Que prescreva nossos comportamentos, nossas histórias, nossos sentimentos. Não vamos debater nos termos dessas pessoas. Vamos destruir nossas narrativas, nossas transições, nossas passabilidades, nossas certezas e nossos corpos se necessário. Não vamos aceitar teorias sobre gênero de pessoas que nunca entenderão gênero, de pessoas que nunca sentirão na pele, de pessoas tão cegadas pelo seu privilégio que não percebem que sua mera existência é uma violência contra nós.

Está na hora de criar nosso próprio radicalismo, de definirmos nossas próprias histórias, de arrancar à força se necessário o que é ser radical da mão de cissupremamacistas transfóbicas.

Não há espaço mais para diálogos, está na hora de destruir a cisgeneridade.

Por que não uso o asterisco

O termo trans* com asterisco surgiu da necessidade de se incluir diversas experiências não-cis e para combater um pouco a multipilicidade de entendimentos do que seria transexual, transgênero e outros milhares de termos.

Entretanto, não acho essa distinção necessária. De certa forma, vejo um pouco como a sigla LGBT, supostamente inclusiva mas usada para falar apenas de homens gays na maioria do tempo. Não adianta colocar asterisco se você não fala dessas experiências trans não-binárias e de outras formas de não-cisgeneridade que fujam à narrativa universal.

Além disso, sou preguiçosa e escrever o asterisco dá mais trabalho do que seu uso justificaria. Dá para entender trans como transexual e como transgênero. Dá para ver diversas narrativas de não-cisgeneridade como transgeneridade e essa já é a posição de muita gente.

Apesar de entender que o asterisco também é uma forma de lutar contra a higienização e hierarquização de narrativas não-cis (“crossdressers são homens, travestis são os dois e transexuais são os que são realmente mulheres ou homens de verdade”), não acho que a contribuição dele para esse fim justifique seu uso mais do que realmente abordarmos e extinguirmos essas higienizações dos nossos discursos.

Além disso, usar o asterisco traz o problema de termos também de definir quem está dentro dele. Uma mulher lésbica bastante masculina conta como trans*? Crossdressers são trans*? E pessoas que quebram a cisnorma apenas num contexto de obter satisfação sexual? E não-cisgeneridades performáticas como drag queens e kings?

A partir do momento em que o termo trans* inclui todas elas e você fala sobre como o nome social é importante para pessoas trans*, isso virou apenas um teatro de inclusividade equivalente a usar LGBT para falar das prioridades gays.

Prefiro evitar esse risco. Dentro do transfeminismo existe espaço para a análise de todas essas narrativas que se encaixam dentro do termo trans* e luta-se contra a higienização e glorificação da narrativa médica transexual como a única (ou a mais) válida. Apenas não acho que o asterisco ajude isso mais do que o que falamos, como falamos, para quem falamos e quem está falando.

Nota: isso são considerações e motivações pessoais minhas e não uma crítica a quem quer que seja que usa o asterisco.

Quebrando mitos: sexo com mulheres trans

Tá tudo bem não querer fazer sexo com alguém. Não importa o motivo. Você não precisa fazer sexo com alguém com pênis se você tem trauma de pênis. Isso não é transfobia. Você não precisa fazer sexo penetrativo se você tem trauma de penetração. Isso não é transfobia. Você não precisa gostar de pênis. Isso não é transfobia.

E mesmo quando seja apenas por transfobia, você não é obrigada a fazer sexo com absolutamente ninguém que você não queira.

Não importam seus motivos. Não precisam falar sobre traumas e experiências ruins. Não precisam se explicar. Nunca. Absolutamente qualquer motivo para se recusar sexo é um motivo válido.

Mas não usem isso para atacar qualquer pessoa que não tenha violado seus limites. Aliás, nem precisariam usar isso nesse caso. A violação dos limites é motivo suficiente para atacar de volta. Não importam as razões desses limites.

Isso deveria ser óbvio. No meu texto anterior eu afirmei que tenho certeza que feministas radicais transfóbicas tem plena consciência sobre isso mas mentem deliberadamente como parte de suas táticas de terror.

O problema é ver que há pessoas acreditando. Essas pessoas não tem culpa nenhuma.

Esse não é o post em que falo sobre a desumanização de corpos trans. Sobre cissexismo estrutural. Sobre ataques transfóbicos contra mulheres trans (e apenas contra elas) disfarçados como “preferência pessoal”.

Esse é o post em que eu grito para que todo mundo ouça:

Você não precisa fazer sexo com ninguém se não quiser. Nunca. Sob hipótese alguma. Não importam seus motivos.

Consentimento sempre prevalece sobre estruturas de poder e opressão e a luta contra elas. Sempre.

Qualquer pessoa que diga o contrário não é feminista. Qualquer pessoa que diga o contrário não merece ter sua voz ouvida.

Transfeministas não estamos dizendo o contrário.

Feminismo radical e Feminismo trans

Originalmente planejava escrever algo sobre a hipocrisia e desonestidade intelectual de feministas radicais transfóbicas. Entretanto, não acho que dar mais holofotes para uma minoria odiosa (ainda que vocal) seja uma estratégia efetiva. Minha luta é contra o patriarcado, não contra mulheres machistas. Minha luta é contra a cisnorma, não contra pessoas trans que aderem a ela numa tentativa desesperada de sobreviver em um mundo que as odeia.

Ainda que seja importante lutar por mudanças internas dentro das nossas “comunidades” (seja ela a trans, a feminista ou a feminina), minhas prioridades estão bem claras. E pensando nisso quero falar sobre o que o feminismo em geral e o feminismo trans especificamente deve ao feminismo radical.

Não saberia nem como listar o quanto entender que o pessoal é político é importante para o feminismo como um todo. Especialmente quando aplicado a perspectiva trans em que a política se faz através dos nossos corpos de maneira intensa, invasiva e potencialmente coercitiva.

A forma de analisar as estruturas e discursos de poder que permeam o sexo (apesar de não necessariamente com todas suas nuances) é abraçada de forma quase unânime pelas transfeministas que eu pessoalmente conheço e leio. Não diria que inspiradas diretamente por feministas radicais, mas acho difícil acreditar que não tenham sido elas que plantaram a semente disso.

Acho especialmente hipócrita quando feministas radicais transfóbicas distorcem intencionalmente o debate sobre o cotton ceiling e acabam traindo seu próprio legado de analisar como a opressão pode permear as práticas sexuais.

Como um pequeno adendo sobre isso, visto que o assunto do cotton ceiling está em alta ultimamemente, preciso comentar que feministas radicais transfóbicas usam de técnicas de terror para silenciar o debate indesejado. Afirmar que não fazer sexo com mulheres trans seria transfobia é obviamente mentiroso e elas certamente sabem disso.

A questão é: cotton ceiling não tem relação com o Brasil. O movimento trans feminista brasileiro não tem articulação suficiente para sequer se unir politicamente em relação a casos pontuais do tipo. Existe transfobia no meio lésbico, obviamente, mas temos travestis garotas de programa negras morrendo a cada dia e os recursos são limitados. Qualquer debate sobre o assunto é puramente teórico e relacionado ao contexto maior em que corpos trans são ojerizados, genitalizados, objetificados e vistos intermitantemente como sexualmente predatórios e assexuados.

E a teoria é simples: não fale que mulheres trans são homens. Não fale que mulheres trans são automaticamente indesejáveis para lésbicas (isso não apenas é transfobia como também é um desrespeito a muitas mulheres lésbicas cis que gostam de — as vezes até preferem — mulheres trans). Não estereotipe mulheres trans (nem todas as mulheres trans tem pênis. nem todas sequer querem usar seu pênis se o tiverem. nem todas possuem “traços masculinos” e as que possuem não possuem os mesmos).

Tudo isso é sintoma de problemas sociais e opressões muito maiores. A questão da estereotipação, por exemplo, é algo que merece uma série de postagens por si só. E em nenhum momento essa reinvidicações mencionam alguma suposta obrigação de transar com mulheres trans. Pois ela não existe, é apenas parte das táticas de terror desonestas usadas por feministas transfóbicas.

Pessoas trans, mulheres trans em especial, são grupo de altíssimo riscos para estupro e violência sexual. Além do mais, não faria nem sentido uma mulher trans querer obrigar alguém que não sente atração pelo seu corpo a fazer sexo com ela. Muito pelo contrário, o efeito nocivo da cisnorma é tão forte que a maioria das pessoas trans, especialmente mulheres, vivem diariamente o dilema de se sentirem completamente indesejáveis para qualquer pessoa que não seja um homem cis fetichista e objetificador.

Ninguém se importa se você individualmente não gosta de pênis. Ninguém se importa se você individualmente não gosta de seios pequenos ou de seios siliconados. Ninguém se importa se você individualmente não gosta de pessoas altas. Ninguém se importa se você individualmente não gosta de mulheres que possivelmente tenham barba ou bigode.

Mas não fale que mulheres com essas características não são mulheres. Não exclua essas mulheres dos seus grupos. Não use a imagem dessas mulheres como símbolo para “coisa subhumana nojenta e abominável” e, principalmente, não fale que nossas reclamações sobre você fazer essas coisas tem qualquer relação com estupro.

Existe um mundo de diferença entre não se atrair por alguém e atacar essa pessoa.
(Minha lista de características potencialmente não-atrativas incluiu propositalmente características comuns em mulheres cis também).

Talvez escreva algo mais longo e mais detalhado sobre isso futuramente. Estou  omitindo a parte mais importante desse assunto (e que possivelmente é a que mais devemos ao feminismo radical) que é sobre como essas preferências e gostos sexuais são num nível não-individual e que estruturas de poder opressoras perpassam e moldam essas preferências individuais.

Finalmente, gostaria de falar sobre gênero. Feministas radicais advocam a abolição do gênero, o que é compatível com o pensamento de muitas transfeministas. Não apenas compatível como diretamente influenciado pelas nossas irmãs e precursoras radicais.

Há, entretanto, um jogo semântico enorme aí, que considero desonesto. Feministas transfóbicas propositalmente ignoram que na maioria das vezes que falamos de gênero estamos conceituando ele de forma diferente da conceituação feminista radical.

A visão de gênero dentro do transfeminismo é múltipla, tremendamente múltipla. Não dá para ignorar a multiplicidade de significados desse termo em cada dialeto intra-feminista e argumentar a partir do senso-comum.

E eu não consigo acreditar que feministas radicais transfóbicas não saibam disso. O objetivo obviamente não é criticar como a teórica X conceitua gênero e debater por que acha esse entendimento do termo errôneo. O objetivo é desumanizar e atacar pessoas trans se agarrando em qualquer justificativa teórica que pareça possível.

Demolição de gênero é uma pauta e luta de algumas transfeministas. “Identidade de gênero” e um sentimento inerente de pertencimento a um gênero são criticados dentro das comunidades trans, ESPECIALMENTE pelas ativistas e teóricas transfeministas brasileiras.

Reforçar estereótipos de gênero¹ é especialmente atacado por transfeministas. Pois somos nós, pessoas trans, que somos institucionalmente obrigadas a conformar a eles de uma forma que dificilmente afetaria a maioria das mulheres cis. Se encaixar em estereótipos de gênero não é pauta teórica e discussão metafísica para pessoas trans. É condição sine qua non para termos nossos corpos e identidades² respeitados, para termos acesso a tratamentos médicos, para não sermos assassinadas. Estereótipos de gênero são a única via para que possamos ter qualquer esperança de manter alguma integridade física e mental numa sociedade cisnormativa e patriarcal.

Vivemos constantemente dicotomizadas em papéis análogos ao santa/puta (que também afeta mulheres trans). Somos ou a “cilada” ou somos o “traveco patético”. E feministas radicais transfóbicas se aproveitam disso. Rejeite a cisnorma e estereótipos de gênero e somos na verdade “homens barbados que acham que vestir saia é ser mulher”. Aceite, por escolha ou coerção, a cisnorma e estereótipos de gênero e somos reforçadoras do patriarcado.

Se alguma feminista radical acha que aceitamos gênero cegamente, ela não está muito bem informada sobre a diversidade que existe dentre pessoas trans e dentre pessoas trans feministas. E isso é uma tática clássica de opressão. Homogeinizar um grupo diverso a partir de alguma característica foi uma ferramenta usada contra TODOS os grupos oprimidos que eu consigo pensar.

Feministas transfóbicas que usam gênero como forma de destilar seu discurso de ódio não estão fazendo nada novo, apenas usando as ferramentas patriarcais que já existiam e já nos oprimiam antes, buscando a teoria apenas para justificar isso. Torcer sua ideologia é uma estratégia comum contra grupos marginalizados. A ciência é usada para justificar o ódio. A religião é usada para justificar o ódio. Com o feminismo não poderia ser diferente.

Devemos muito ao feminismo radical. Algumas pessoas vocalmente opressoras e odiosas não mudam isso. Não mudam o fato de que nosso feminismo é o mesmo e que o diálogo entre feminismo trans e radical não é apenas possível como também é desejável. Discordâncias teóricas são inevitáveis e — não sei como enfatizar isso suficientemente — são boas.

“Mas qualquer discordância teórica é vista como transfobia”? Não deixe que as táticas de terror de algumas pessoas se tornem uma profecia autorrealizável. Tenha empatia e entenda que algumas dúvidas e discordâncias teóricas são usadas para nos atacar há décadas e temos tanto direito a reagir e nos auto-preservar diante disso quanto uma mulher cis tem direito de não aceitar um homem cis bem-intencionado (ainda que ignorante) que acha que pensão é uma opressão contra homens ou que apenas monstros estupram e são violentos contra mulheres.

Eu pretendo escrever mais sobre como algumas críticas são altamente carregadas e sinalizam quase imediatamente alguém que potencialmente nos atacará e como evitar isso na hora de debater futuramente, mas por enquanto, os comentários estão abertos.

1. Eu tenho milhares de críticas ao termo e ao conceito de “estereótipos de gênero”. Considero um conceito tremendamente raso e sem muita utilidade analítica. Uso ele aqui apenas for the sake of argument.
2. Não uso “identidade” da mesma forma que algumas pessoas entendem o termo. Quando uso ele aqui e em outros lugares é apenas pois não existe algum termo suficientemente bom para substituir e não por eu de alguma forma endossar políticas de identidade. Como já abordei em textos passados, acho irrelevante usar conceitos teóricos de identidade para o projeto de um feminismo trans-inclusivo, mas é um termo que vulgarmente é útil e preenche um vão semântico importante.

Críticas ao termo e à identidade cis

Como um tipo de continuação ao meu texto anterior sobre identidades, gostaria de analisar algumas críticas comuns ao termo cis e porque não acho que são válidas. Essa não é uma lista completa e inclui apenas as coisas que consegui lembrar na hora.

 

Mulheres não têm privilégios, homens têm

Também conhecido na roupagem do “não há privilégio em ser forçada a um gênero oprimido” (e nesse caso, a resposta à terceira crítica também é relevante).

Sem entrar em nenhuma lista de privilégios cis (podem ser facilmente achadas por aí), essa crítica peca por não entender corretamente o conceito de interseccionalidade.

É verdade que mulheres não tem privilégios e sim homens. Mas isso é apenas em um eixo específico. Mulheres podem ter privilégio branco, privilégio de classe e privilégio cis. Cis-trans é um eixo distinto de privilégio-opressão. Uma mulher branca é oprimida por ser mulher mas faz parte de um grupo opressor por ser branca. Uma mulher cis ainda é oprimida por ser mulher mas faz parte de um grupo opressor por ser cis.

Da mesma forma, mulheres trans são oprimidas por serem mulheres e trans (mas podem ser parte de um grupo opressor também por serem brancas, ou ricas, etc). Homens trans possuem privilégios masculinos mas são oprimidos por serem trans (é muito importante notar também que os privilégios masculinos de um homem trans são bastante diferentes dos de um homem cis, algo que pretendo escrever mais sobre no futuro).

 

Cis é um xingamento

Não, não é. É um termo completamente neutro.

 

Não me identifico como cis pois nunca tive outra escolha

Pessoalmente, acho esse negócio de ter “outra escolha” um argumento duvidável, mas explorar isso requer suposições demais e fugiria ao escopo desse texto.

O maior problema com essa crítica é pegar uma distinção política e transformar isso em algo dependente dos sentimentos internos da pessoa. O sentimento é uma parte importante da análise e não deve ser ignorado, mas a terminologia é primariamente política. Uma forma de sublinhar privilégios e desnaturalizar o gênero ou a “identidade” das pessoas que os possuem.

 

Me parece bastante duvidável que as pessoas aceitem serem identificadas como heterossexuais ou como brancas mas não aceitem serem identificadas como cis, que possui basicamente a mesma função (e como elas, possui nuances e complexidades e nem sempre é útil ao tentar lidar com casos individuais, sendo uma distinção primariamente política).

Uma mulher que só se relacionasse com homens dizendo que não concorda com ser chamada de hetero por não ter tido escolha não seria tão facilmente aceito quanto a mesma coisa é quando se trata do termo cis.

A humanidade é grande demais e variada demais para ser possível que termos descrevam a infinita complexidade da experiência humana. Mas esses termos, enquanto categorias políticas, são úteis. E como estratégia política é importante não ignorar as inadequações desses termos ao serem aplicados a indivíduos, e como privilégios e opressões não são simples e fáceis de entender: são situacionais, contextuais, e dependem de diversas variáveis. E, geralmente, é justamente nas pessoas que não se encaixam perfeitamente nessas categorias simplificadas que essas nuances importantíssimas podem ser observadas.